O mix cultural de Kuala Lumpur

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Engraçado como as coisas acontecem. Nem Malásia e nem Singapura estavam no roteiro original da nossa passagem pela Ásia, que inicialmente incluia somente Nepal e Tailândia.

[do action=”caio”]talvez eu sou em partes culpado pelo tempo curto inicialmente, não sou um cara pra Ásia, eu acho[/do]

Em junho conhecemos um chinês em Lauterbrunnen, no interior Suíça, e ele nos convenceu a visitar Singapura, onde mora. E durante nossa trilha no Nepal, lá no alto, conhecemos um malaio com quem ficamos conversando por horas e nos deixou sonhando com comidas diferentes que eles tem. Já que estávamos indo para Singapura, por que não dar uma paradinha na Malásia também e encher o bucho?

Compramos o trajeto saindo de Krabi, na Tailândia, por 28 dólares por pessoa, incluindo uma van até Hat Yai, ainda na Tailândia, e um ônibus noturno até Kuala Lumpur. A viagem foi super tranquila, apesar de longa: foram 5 horas de van até Hat Yai, 2 horas de espera na cidade, e mais 8 horas de noite no ônibus até KL.

Kuala Lumpur do alto da torre do planetário

Kuala Lumpur do alto da torre do planetário

O ônibus noturno foi um dos melhores ônibus que já pegamos, poltrona larga (só 3 por fileira, bem espaçosas), super inclinável, com ar condicionado, cobertor e filminho. Infelizmente a gente não deu muita sorte com a poltrona que pegamos, ficamos nas últimas, que não deitavam completamente e balançavam pra caramba, mas a qualidade do ônibus e serviço, por esse preço, dá uma surra em qualquer viagem no Brasil. Aqui eles sabem viajar de ônibus, mesmo que os cobertores tenham acabado antes de chegar a nossa vez de pegá-los, então passamos um frio danado à noite!

Passar na fronteira foi rápido e tranquilo, tanto na saída da Tailândia quanto na entrada da Malásia. Brasileiros não precisam de visto para entrar nesses países, o que torna as coisas bem mais fáceis. Acho que se ficamos 10 minutos em cada imigração foi muito!

Chegamos em KL às 4 horas da manhã na Pudu Sentral, a principal estação de ônibus da cidade. Ela fica bem localizada (especialmente pra mochileiros), do lado de Chinatown. Vimos vários restaurantes abertos, os dois famintos depois de tanto tempo viajando, mas nenhum lugar aceitava cartão e todos os ATM que encontramos estavam fora do ar, e a gente sem um centavo no bolso! Conversando com algumas pessoas descobrimos que os ATMs param de funcionar de madrugada e voltam somente às 8h, por segurança. O jeito foi esperar amanhecer pra poder ir andando pro hotel, a refeição teria que ficar pra outra hora.

Chinatown

Chinatown

Ficamos em dois lugares diferentes em KL, por questões logísticas. O primeiro bairro que ficamos foi Chinatown, que é muvucado mas é bom para mochileiros porque tem tudo perto, comidas de rua, restaurantes, lojas de conveniências e, pra quem ainda tem espaço na mochila, barraquinhas vendendo todo tipo de bugiganga Made In China! Por ali também é fácil de acessar transporte público, então recomendamos sem medo. É uma área bem diversificada culturalmente, cheio de malaios, indianos, chineses e outras etnias. Como a Malásia toda é. Os ares são de centro velho, meio sujo e bagunçado, mas você se acostuma. KL parece toda ser assim, tirando um centro de negócios modernoso que é o que botam em fotos com lojas de marcas caras.

Depois de uns dias em Chinatown “nos mudamos” para Little India, em um hostel bem pertinho da KL Sentral, a estação central de trem, o que foi muito conveniente pra gente posteriormente. É bem legal conhecer o bairro pra ver a outra cara da cidade, pois o local é dominado por indianos e o comércio em volta é bem diferente, mas não gostamos muito não. Dá pra se virar, também tem a comodidade de ter tudo perto, mas Chinatown é bem mais amigável e “walking distance” de mais coisas!

Crianças teletubbies de uma escola muçulmana, Jardim Botânico

Crianças teletubbies de uma escola muçulmana, Jardim Botânico

O que mais chama atenção em Kuala Lumpur é o contraste entre as 3 diferentes culturas que convivem no país (e outras menos representadas). A divisão entre malaios, chineses e indianos está em absolutamente tudo! Quando você entra em um bairro ou um restaurante explicitamente chinês/indiano/malaio, parece que você está em outro país, a língua é diferente, a comida completamente diferente, o trato com os turistas, a limpeza, a organização, os gestos, tudo. Não tem como ir para a Malásia esperando encontrar uma cultura homogeneamente malaia. O que marca o país é exatamente essa diversidade impossível de não saltar aos olhos. É como se o país fosse um entreposto e todos decidiram ficar ali ao mesmo tempo e passaram a morar no mesmo lugar.

Essa divisão cultural tornou a nossa comunicação por lá complicada, mas às vezes até divertida. Nas ruas, estações de trem etc, as coisas estão escritas em inglês, malaio e chinês. Quando precisam se comunicar entre eles, quando de outra cultura, utilizam o inglês. Mas quando se afasta um pouco do grande centro, é muito normal encontrar pessoas que só falam a própria língua. Teve um dia que passamos meia hora traduzindo um menu de restaurante no Google Translate, pois era só em malaio e os donos não falavam uma palavra sequer em inglês num bairro isolado da cidade! Isso aconteceu nos primeiros dias, e foi ótimo para aprendermos as principais palavras que precisávamos saber na hora de pedir uma comida :-)

A parte central de KL tem cara de cidade grande, com todos aqueles prédios altos, grandes avenidas e, claro, as Petronas Towers. Mas no geral a cidade é caótica e não respeita muito os pedestres. Mesmo curtas distâncias são difíceis de andar por lá porque às vezes não se acha calçadas, mesmo perto de pontos turísticos importantes. Pra chegar ao Jardim Botânico, por exemplo, tivemos que dar uma super volta e atravessar uma rodovia à pé!

KL é isso aí, tudo junto e misturado

KL é isso aí, tudo junto e misturado

Usamos transporte público todos os dias durante a nossa passagem por lá. Achamos super bom, rápido, funciona, só que é confuso entender os trajetos e tem pegadinhas com baldeação, na hora de comprar tem que ficar esperto senão perde uma boa grana. Pra se ter idéia, uma viagem custa em média 50 centavos de dólar, mas se no trajeto tiver que trocar o trem a passagem quase dobra de valor, mesmo que seja só por uma estação. Compensa muito descer uma estação antes e ir andando pra não ter que pagar o dobro! Um dia fomos longe na cidade e custou 8 moedas locais, sendo que com o truque da baldeação por contra própria poderíamos ter pago não mais que 4.

Petronas ainda de dia

Petronas ainda de dia

Turisticamente, foi muito legal ver as Petronas de perto mas não subimos porque achamos caro demais (USD 25 por pessoa!), quase um roubo. Chegamos lá no final da tarde pra pegar elas de dia e à noite, e a diferença é brutal, é bem legal ter as duas vistas.

Petronas de noite, bonitosas!

Petronas de noite, bonitosas!

Fomos também conhecer a feira gastronômica de Kampung Bharu, ou melhor, achamos que fomos! É um bairro inteiro que da noite de sábado até a manhã de domingo se enche de barraquinhas vendendo todo tipo de comida local. Kampung Bahru é uma vila tradicional enclausurada no meio da cidade mas que não é tocada por empreedimentos, então as casas, comidas, pessoas vivem como há decadas atrás entre arranha-céus do distrito comercial rico em volta. É bem legal, mas a gente chegou no bairro e achamos as barraquinhas e tal, mas fomos pra casa achando meio fraco. Achamos internet e descobrimos que a gente chegou até duas ruas antes de onde a feirinha bombava forte, ou seja, não tava fraco não, a gente é que não andou o suficiente! Foi legal e vimos bastante coisas, mas só podemos imaginar como seria se tivéssemos andado ainda mais.

Bairro tradicional de KL no meio do centro, Kampung Bahru

Bairro tradicional de KL no meio do centro, Kampung Bahru

Uma visita legal pra fazer é o Jardim Botânico Perdana, bem pertinho do Planetário Negara. Cara, temos visitado vários planetários ao redor do mundo e esse foi de longe o melhor de todos!

[do action=”caio”]vi o filme Journey To The Stars no AMNH em NYC anos atrás e foi ótimo revê-lo, é o melhor pra planetários com certeza[/do]

O filme foi bem legal, a qualidade do planetário em si é ótima, mas o melhor de tudo é a exposição gratuita que tem no local, com várias atividades e jogos interativos muito bacanas. É para ensinar crianças, mas os adultos se divertem! Tem uma tabela periódica do tamanho da parede, onde cada elemento é uma janelinha onde tem um objeto feito daquele elemento, tem uma balança que diz o seu peso em vários planetas, e dá até pra brincar de pilotar um robozinho em marte! Heheh.

[do action=”caio”]prêmio melhor planetário vai pro de KL, empatado com o de NYC! me diverti horrores lá, parecia uma criança, bem divertido e modernoso[/do]

Entrada do super planetário de KL

Entrada do super planetário de KL

Se a gente tivesse mais dinheiro e mais espaço na mochila, a gente ia fazer a festa com compras em KL! No bairro de Bukit Bitang o que não falta é shopping cheio de coisinhas baratas. Visitamos o Low Yat Plaza, um shoppingzão de eletrônicos famoso na Ásia, pra comprar um cartão de memória que estávamos precisando. Achávamos que íamos encontrar tipo um camelódromo cheio de coisas falsificadas e seria até perigoso de comprar, mas não, é um shopping de lojas mesmo, e a maioria que a gente visitou era de produtos originais. Tem até lojas da Intel, Samsung, Acer, Sony… muito bom! São 7 andares entupidos de gente e lojas de tudo que é eletrônico e coisas pra fotografia e vídeo.

Ah, e claro que não poderíamos deixar de falar de comida, que foi um dos motivos que nos fez parar em KL, depois da conversa com o malaio no Nepal. A influência mais forte pelo país é a chinesa, então tem miojos e carne de porco até dizer chega, mas um prato que tem em todo o canto e é considerado o mais tradicional é o nasi lemak: arroz branco com um ovo frito por cima, frango frito empanado e vegetais com molho pimenta. E que pimenta! Por lá eles gostam muito, e é mais forte que na Tailândia, deve ser o tipo de pimenta… e também experimentamos uma sopa tom yum de frutos do mar que, cara, foi hardcore comer! O laksi, um frango no molho agridoce, também é tradicional e bem bom, mas diferente dos sweet & sour que provamos na Tailândia pois não vai abacaxi nele, o molho que é doce mesmo. Estranho… “viscoso mas gostoso” :-)

Se curtir uma sobremesa, vai gostar do tambun biscuit, um biscoito que é uma bolinha de uma massa parecida com empadinha só que é doce, e tem em diversos sabores. Cai bem com um café da Old Town Coffee, uma cafeteria famosa estilo Starbucks que tem por toda a Malásia e é bem boa (com preços populares, tem até em bairros mais povão) para experimentar o white coffee, a mistura malaia de café que é uma delícia! Pesquisamos aqui e descobrimos que ele é feito com grão de café tostado em margarina e adoçado com leite condensado. Ok, acho que é por isso que era tão bom.

[do action=”caio”]e gordo né! Tomamos o teh tarik também, mas achei uma droga de amargo, argh :-([/do]

Gostamos muito de ter visitado Kuala Lumpur, foi uma visita rápida de 4 dias mas cheia de atividades! Se tivéssemos mais dinheiro, teríamos subido nas Petronas, visitado o aquário deles que é simplesmente inacreditável (pelas fotos, você passa em túneis dentro dos áquarios e tem tubarões) e talvez até as Batu Caves, umas cavernas com templos que ficam próximas à cidade. Mas mesmo não tendo muita grana, a diversidade cultural de KL chama tanta atenção que simplesmente passear pelas ruas fez da cidade um destino especial. Se não tivéssemos encontrado o malaio naquele final de tarde, no alto das montanhas do Nepal…

Jardim Botânico de KL, difícil de chegar mas um paraíso verde no centrão

Jardim Botânico de KL, difícil de chegar mas um paraíso verde no centrão