Um segundo por dia da viagem, em vídeo

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Nós mal voltamos pro Brasil e não paramos enquanto não terminássemos um projeto pessoal que durou toda a volta ao mundo: gravar um segundo significativo a cada dia de viagem, pra montar um vídeo de tudo isso junto. Ainda vamos organizar nossos backups e todas as fotos que tiramos no último ano, mas enquanto isso aproveite pra ter uma idéia do que vimos! O vídeo tem legenda em português e inglês no Youtube inclusive:

Se preferir um estilo mais natural, tem o vídeo cru com o áudio original e sem edição alguma, só a colagem dos segundos em um arquivo só mesmo.

Para os curiosos e mais nerds, até tentamos montar o vídeo usando um dos vários apps estilo “one second everyday” que tem pra celulares, mas eles só serviram mesmo pra cortar os trechos de um segundo a cada dia. Na verdade, nem isso direito faziam, já que os segundos com o acúmulo de dias não ficou mais preciso, variando pra mais e pra menos… e no fim das contas um terminal com tela preta salvou a pátria de novo. Fiz um script que hackeava o banco de dados do programa 1SE.app pra iPhone (com jailbrake) pra não ter marcas d’água do programa nos segundos e nem o logotipo deles no fim do vídeo, um absurdo se parar pra pensar que eu paguei por ele e não devia ter meus vídeos sujos. Daí foi só usar um mencoder aqui, um ffmpeg ali e pronto. Efeito de cor e imagem botei no iMovie e a música em loop eu fiz na raça no Audacity.

Pronto! :-)

Passeios nerds no Vale do Silício

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Quando nós vimos em São Francisco a Carol e o Faw, também de Curitiba e morando nos EUA, fizeram um convite irrecusável pra gente: visitar a região de Menlo Park e as empresas do Vale do Silício. Trabalhando com computação desde sempre, tentei segurar o sorrisão pela oportunidade! Não só ganharíamos um lugar ótimo pra ficar, como teríamos companhia brasileira pra passeios nerds e começar nossa reabilitação social pra volta pra casa.

De trem via Caltrain até o Vale do Silício, que na verdade é meio que uma definição bem superficial da região, fica por volta de 7 dólares por pessoa naqueles vagões duplo deck igual do filme Source Code, que tem um nome até sugestivo pro que iríamos fazer. Ficamos mesmo em Menlo Park onde eles moram virtualmente do lado do Facebook, de dar pra ir à pé, então começamos a visita pelos prédios deles.

Fizemos o mapa da RTW no The Wall original do Facebook :-)

Fizemos o mapa da RTW no The Wall original do Facebook :-)

Por dentro o Facebook parece uma mini cidade, e embora eu, Caio, use bem menos que a Dani o serviço deles, fiquei bastante impressionado pela parte física do lugar.

Jóia

Jóia

Tudo aberto, se anda à vontade lá dentro pelas ruas e calçadas da mini cidade, até passar em frente a mesa do Zuckerberg dá porque ele senta junto com a galera. Foi muito legal fazer esse tour com o Faw, principalmente por ver o que eles tem de Open Compute, com direito a ver as máquinas e racks abertos de exposição e onde trabalham… e claro, pelo sorvete grátis :-)

Afundou

Afundou

Por fora o Facebook tem um logo que é reaproveitado de um antigo da Sun que ficava ali. Por trás dá pra ver como tá decadente o logo da Sun, e querendo ou não passa uma mensagem até poderosa de que tudo vai a falência eventualmente. Foi interessante ver isso.

Tadã!

Tcharam!

Fomos também com a Carol dar um rolezinho, mas esse sem baderna, pelo Googleplex. O lugar é realmente enorme mas tem muita cara corporativa pela natureza dos prédios, que antigamente eram de empresas mais gravatas e foram sendo comprados e anexados ao campus deles.

As bicicletas do Googleplex são bonitinhas

As bicicletas do Googleplex são bonitinhas

Passamos pelo prédio onde fica o Google Plus, pra balancear a visita dentro do Facebook, sabe como é. Não entramos na lojinha deles porque não estávamos com um funcionário, o que pra mim é bizarro, mas como tem fama de careira não teve problema. A visita ao Googleplex foi bem diferente da visita que fizemos por dentro no Google na Suíça, lá foi mais nerd e por dentro, no Googleplex só foi por fora, mas foi bacana.

Escultura do T-Rex que tem no campus do Google

Escultura do T-Rex que tem no campus do Google

Aproveitamos o embalo que tínhamos pra ir pro Texas visitar a NASA e paramos no Ames, um centro de pesquisa deles no Vale do Silício. Pesquisam de tudo lá hoje em dia, mas só se pode entrar num galpão museu que eles tem. De fora dá pra ver até mais coisas, como o túnel de vento ridiculamente grande que já foi o carro-chefe do centro, e o hangar de balões igualmente enorme. O museu em si é bem pequeno mas muito bem organizado, afinal é da NASA. Tinha uma cabine simulando uma decolagem de um ônibus espacial onde você interagia reagindo a alarmes mexendo no painel! Tinha um simulador de sistemas solares pra você testar órbitas e vimos uma réplica de um módulo da ISS, com partes que já estiveram nela inclusive. Adoramos, é claro :-)

Cabine simulando lançamento de ônibus espacial no Ames

Cabine simulando lançamento de ônibus espacial no Ames

Estando no Vale do Silício e aproveitando ainda a companhia, não tínhamos como não ir no Museu da História da Computação que vale muito a pena. É foda mesmo. Eles tem unidades físicas de tudo o que se pode imaginar, e embora nem todas sejam funcionais e não pudesse encostar nelas, é uma baita sorte poder ver tudo aquilo. Demos sorte mesmo pela visita guiada que tava começando bem quando chegamos, então os 15 dólares de entrada foram bem compensados! O senhor que era guia parece que viveu na região desde quando começou o boom tecnológico ali e manjava bastante até. Vimos no museu altos Cray, antigos e mais recentes, e a parte de supercomputação foi até surpreendente. A parte de jogos é muito legal, mas o Pong não era o original ;-)

Naturalmente, agora tem uma seção só de computação móvel, com os fracassados e os que vingaram, e como fizemos a rota invertida no museu indo da história recente até a mais antiga, eles foram os primeiros visitados e deu uma perspectiva legal de miniaturização ao chegar na parte de cálculo mecânico e maquinário antigo. E que lojinha era aquela que eles tem, cara! Cheia de tranqueiras nerds, antigas e novas, muito foda de resistir. Reserve um bom dinheiro se passar lá :-)

Antes de sairmos da Califórnia, afinal já estávamos ali há 10 dias, tínhamos que bater cartão nos pontos da Gordolândia do Silício também! A região merece tour gastronômico também, ora bolas. Os sanduíches do In & Out são super simples, mas adoramos, muito bons e baratos. Krispy Kreme é ultra gordo mas é complicadíssimo resistir ao cheiro dos donuts deles, assim como é difícil ir na The Cheesecake Factory e não sair de lá rolando. Pra padrões mochilatórios ela é cara, mas vale a pena demais. Numa noite fomos todos lá e não deu mais que 30 dólares por pessoa pra dividir uma entrada, prato, bebida e o cheesecake mais animal que se pode imaginar. Empanturrados, mas felizes, Vale do Silício foi da hora!

Meu safári linguístico por aí

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Como havia acabado de me formar quando começamos a volta ao mundo, eu estava bastante empolgado pelo que ouviria e veria relacionado a línguas viajando por aí — eu gosto de dizer por aí desse jeito. Naturalmente tinha uma boa dose de ingenuidade nisso, visto que passaríamos por lugares meio que conhecidos já, nada absurdamente exótico culturalmente, ou mesmo muito isolado, ou muito linguisticamente relevante hoje em dia. Contudo, consegui me divertir bastante reparando em detalhes no dia-a-dia e anotei tudo como recordação, abaixo. Claro, pra um linguista, simplesmente ter contato cotidiano por pouco tempo com uma língua não é suficiente… mas não dava tempo de estudar em nada nenhuma delas, é a vida. Me contentei com um safari por elas :-)

Linguistas, pessoas sérias

Linguistas, pessoas sérias

Viajamos por todos os continentes habitados, então era de se esperar ter contato com um número decente de línguas de famílias linguísticas diferentes. Se não me falha a memória, além de variantes européias e africanas do português, li e ouvi: um pouco de zulu, muito africâner e umas frases em xhosa; muito árabe egípcio, do qual até aprendi umas frases; grego; italiano; alemão e uma boa dose de alemão suíço; francês; espanhol em vários rebolados, língua basca e catalão; nepalês padrão e dialeto gurung em uns vilarejos e que não entendi muito, além de algumas coisas em línguas indianas que também não conheço, como hindi; muito tailandês gritado; malaio e a mistureba linguística que singapuranos falam; um pouco de vietnamita, que me pareceu bem suave; cambojano, ou língua khmer; maori, divertido nas ruas e na televisão; um pouquinho de japonês e coreano dos turistas e muito chinês mandarim e cantonês espalhado pelo mundo todo; inglês americano, britânico, irlandês, escocês, australiano, kiwi, sulafricano, singapurano e o pidgin, ufa, que todas as pessoas do mundo tentam falar de vez em quando!

Uma coisa é ler sobre uma língua qualquer, outra é ter a chance de ouví-las em uma viagem. Me diverti e matei muito tempo ouvindo pessoas conversando e tentando interpretar em símbolos fonéticos na minha cabeça o que elas estavam pronunciando. Devo ter ouvido outras línguas que não faço idéia em albergues e hospedagens por aí — falei que gostava de dizer por aí — e tentava sempre me entreter tentando adivinhar da onde a pessoa era. Se não soubesse identificar por nome a língua com alguma precisão, tentava adivinhar a região linguística onde a pessoa cresceu. E como a Dani sempre tava me perguntando qual língua alguém tava falando, por curiosidade ou estranhamento, então isso era também um tipo de “desafio ao galo” heheh.

Saber que alguém era do leste europeu ou do norte da europa era fácil até sem olhar pra pessoa, o que estragaria a brincadeira entregando na hora da onde ela era. Fiquei verdadeiramente satisfeito e com o ego massageado quando uma moça francesa que acabara de conhecer ficou impressionada por eu notar que ela era de Paris e não do sul da França, onde estávamos, mas na hora pareceu simples! Além disso, chegou uma hora na viagem que notar a diferença entre tailandês, chinês, coreano e japonês ficou trivial até, por tanto contato que tivemos com asiáticos :-)

Outra coisa muito legal e interessante foi ver e cof cof ler cof cof tudo com alfabetos alienígenas pra um brasileiro. Como muitas línguas usam alfabeto latinizado, isso não teve tanta graça em boa parte da viagem. Mas até aprendi a ler números em árabe, que parece difícil falando assim mas é mais simples do que se imagina, alguns números são até óbvios, e é bastante prático no dia-a-dia pelo oriente médio pra conferir preços, bilhetes etc. Cirílico até vimos em albergues e casas onde ficamos, mas foi praticamente um pouquinho ali, um pouquinho acolá, irrelevante.

Alfabeto grego foi outro que rendeu também, a Dani não entendia como eu sabia ler ele, mas era uma manha. O fato é que eu não sabia lê-lo mesmo e acabou, o que eu sabia era pra onde eu queria ir e os nomes dos pontos de referências nas cidades, então era só traduzir as letras deles pro som que eu conheço, arrendondar uns chutes do que é o que e pronto, truque barato mas eficiente pra impressionar as gatinhas na festa de fim de ano e de quebra não se perder pela Grécia!

Nepalês e línguas indianas pra mim ainda são um mistério, mas como me interesso pouco por elas nem fui muito atrás. Agora, línguas do sudeste asiático acabarem sendo legais porque as sutilezas e diferenças delas são bacanas de notar. Acho, mas sem muita certeza, que consigo dizer se um texto tá em tailandês ou cambojano só de bater o olho nele agora. Talvez eu perca esse super poder em breve, sem praticá-lo. Diferenciar japonês, chinês e coreano não conta porque é bastante fácil se você usar um pouco de observação. Difícil mesmo é entender aquilo :-)

Uma coisa engraçada em relação a entender o que tão falando é que tão logo notamos que muitas palavras soam como universais, a Dani e eu, Caio, começamos a falar em voltas. Explico. Você não pode simplesmente chegar num albergue e falar que um americano parece idiota por estar comendo sopa. American. Idiot. Soup. Ele vai entender. O exemplo é tosco mas é só pra explicar a idéia. Então, no lugar, você diz que tal gringo é besta ou bobo por estar comendo aquele caldo ou ensopado. Coisas assim, ou então apelávamos pra encavalar todas as palavras da frase e sem falar muito alto. Acredite, se bobear as pessoas entendem que você tá falando delas mesmo sem conhecer sua língua. Às vezes é meio constrangedor elas te olharem feio e você demorar uns segundos pra perceber a cagada.

Chegou uma hora em que só falávamos assim, com frases com o dobro do comprimento pra dizer “aquele cara do país onde fizemos tal coisa” porque o nome do país é óbvio demais em todas as línguas que encontramos, como, sei lá, França, ou Austrália. É como quando diziam algo sobre nós, brasileiros. Brasil é um termo quase intraduzível, acho que só orientais tem termo próprio pra gente, então é fácil saber e reparar quando tão falando algo de você e pegar a pessoa no flagra.

Pessoas monolíngues não sabem o que estão perdendo. É uma lástima enorme se você só fala uma língua, como a maioria absoluta dos brasileiros. O mundo não é nem nunca foi monolíngue, e nem será. Nunca vou entender esse orgulho idiota, nacionalista até, que os brasileiros tem em não saber ou mesmo querer aprender outras línguas. Tudo bem, o Brasil é enorme e auto-suficiente em questão cultural e linguística, as pessoas não precisam aprender outras línguas de fato a não ser por pressão econômica hoje em dia. O problema é esse não querer, que é atitude padrão. É totalmente limitante pra um povo, até fisiologicamente pra um indivíduo.

Por falar só inglês e entender um pouco de outras línguas (como espanhol que aprendi suficiente pra conversar e italiano, que pra surpresa da Dani até hoje não faço idéia como compreendia as pessoas falando na rua sendo que nunca o estudei [talvez resultado de ter estudado latim um pouco {ou foram os genes da família falando}, sei lá]) ainda me sinto envergonhado viajando. Eu devia falar outras línguas. Pelo menos outras duas! Quanto melhor os binóculos melhor o safári! Sacou a piada? Imagine falar somente português e mais nada, e perder tudo o que tem aí fora… e ainda ter orgulho da própria estupidez…

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